Na vida – e no desporto não é excepção – existirá sempre um eterno descontente por não compreender o que está a ser feito. Porque o que é feito está além da sua vista e não percebe que existe uma dimensão maior, a dar suporte, a cada acção. No futebol, e em específico com o guarda-redes, isto torna-se de uma injustiça gritante.

Podemos mesmo dizer que não sabem o que é ser guarda-redes. Para muitos, continua a ser o elemento “gordo” e que não conseguiu ser alguém na frente e que foi para a baliza para ser protagonista ou que serve apenas para levar bolada… Eles não sabem… porque não se explica, sente-se.

Actualmente e com a evolução da modalidade, o guarda-redes surge como um dos elementos do jogo mais completos e elegantes. Todos sabem as fragilidades de um guarda-redes tal como os seus pontos fortes. Mas não sabem compreender as razões que levaram a um erro, enquanto quando defende dizem que não é mais que a sua obrigação. É o elemento perfeito, que tem de ser perfeito mas que não aceitam a perfeição da sua existência. É normalmente o jogador dos 22 em campo que tem maior acerto nas tomadas de decisão. Nos posicionamentos, nos deslocamentos, no timing de saída, na espera… Para o comum adepto crítico que não entende isto: as defesas, os bloqueios, as saídas e a segurança que oferece. Para o comum adepto um guarda-redes pode fazer o mais inútil voo que seja “bonito” e que não tenha aplicação prática, que ele vai aplaudir. Mas não aplaude o momento em que sai da área para aliviar para fora um ataque com um passe na profundidade. Para eles, os críticos destrutivos, ele devia dominar e sair a jogar. Atirar para fora? É inútil! Este é o pensamento normal.

Urgem pessoas que compreendam o fenómeno do guarda-redes. Não é por acaso que veste a roupa diferente em campo e que é distinto dos demais. É uma análise complexa que não depende apenas de si, mas da forma como a sua equipa à frente joga. Não se pode pedir a um guarda-redes habituado a equipas de bloco baixo, a ter acções como o Neuer no Bayern. É de quem não se adapta a um contexto e que quer apenas destruir o guarda-redes em questão. Isto tudo é treinado, é potenciado, é moldado às respectivas equipas.

Isto para dizer que pelas bancadas de Portugal inteiro, existem os bons e maus adeptos. Se calhar tenho o “azar” de estar rodeado, por cada campo que passo para ver um jogo, destes críticos destrutivos. Se lhes tentam explicar algo, eles vão dizer que és do clube rival. Se tentas refutar de forma educada, eles respondem com insultos.

Estes são aqueles que vêem um jogador a fazer uma finta bonita e sem aplicação prática e que de seguida oferecem “de barato” um contra-ataque ao adversário que coloca o guarda-redes em perigo. Não é criticado. O guardião sofre o golo, e é inútil porque devia ter feito algo diferente para evitar o golo. Porventura isto é uma questão cultural. Ou não, certo é que a cultura desportiva e principalmente de tentar compreender cada acção feita não existe. Seja no próprio campo que exigem ao guarda-redes atitudes de sair ao final da área só porque sim mas que quando ele faz algo espalhafatoso – mas bonito para o comum adepto – e a bola sobra para o adversário e é golo, para eles é “apenas azar”. Não compreendem o que podia ser evitado ou melhorado, desde que seja bom para os seus olhos… é apenas isso, bom para si.

Depois podem fazer as mais brilhantes defesas, ter as mais fantásticas decisões durante o jogo… Basta um momento para ser o vilão. Um momento para ser o culpado. Parece cliché dizer isto sempre, mas é a mais pura realidade, e uma realidade que não tende a mudar. Tem de haver um culpado no desaire e é tão fácil culpar o senhor da camisola diferente. Não, não é o árbitro… é o guarda-redes, aquele que não compreendem.

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