Artigo: 6# Podcast A Última Barreira – Ricardo Pereira (Parte II)

Artigo escrito por Pedro Santos e Gonçalo Xavier. Parte I: ver aqui

Microciclo do treino de guarda-redes:

Na elaboração do microciclo, importa retirar o máximo de informação dos treinadores e também dos analistas por serem essenciais na construção do que irá ser a semana de treinos. A elaboração do microciclo de treino é sempre baseada e em função do próximo jogo, sendo que em semanas mais curtas onde existe muito menos tempo para treinar foca-se unicamente no próximo jogo, isto se o jogo anterior não tiver grande ligação com o jogo seguinte. Esta opção é no sentido de priorizar o que é mais importante trabalhar nestas semanas mais curtas (com 2 jogos).

Durante a semana de treinos trabalha se numa lógica de +1 (dia de recuperação após o jogo), -5, -4, -3, -2, -1 em função do jogo. No início e meio da semana o treino tem um maior foco na resistência especifica e força explosiva e reativa, terminando a semana com velocidade de deslocamento e velocidade de reação, sendo que em semanas mais curtas prioriza-se a velocidade e o tempo de reação.
Em termos mentais e decisionais, para quem jogou, no início da semana o trabalho decisional é praticamente nulo e no dia a seguir é muito baixo promovendo a recuperação deste Guarda-Redes.
O estímulo de trabalho de decisão aumenta a meio da semana e volta a baixar na véspera do jogo, sendo que o meio da semana é quando a carga decisional nível a nível tático e estratégico é mais exigente, porque preparamos para decidir bem em jogo.
Procura passar por todos os momentos de jogo e mistura momentos entre eles, com preocupação tática, mas também técnica, e tendo pouco tempo para treinar importa que o que é basilar no Guarda-Redes esteja automatizado através de muita frequência/automatização no treino.
Cada sessão de treino tem uma lógica de crescendo a nível de complexidade e nível de dificuldade. A estratégia para o jogo está presente no microciclo a partir do segundo dia da semana de treinos.

A utilização de vídeo:

Na elaboração dos exercícios a utilização de vídeo (em treino) apresenta-se como uma ferramenta destinada a verificar com maior incidência os pequenos detalhes que muitas vezes o olho não tem capacidade para observar, sendo determinante “treinar o olho” para o feedback que damos em treino.

O vídeo ajuda muito na elaboração de exercícios mas considera não ser determinante, pois a escolha dos exercícios decorre muito do que é o modelo de jogo da equipa, e torna-se importante sim, perceber o modelo de jogo, as tarefas do Guarda-Redes em posse de bola, a defender o espaço, e a defender a baliza, como também os posicionamentos e reposicionamentos exigidos.
A partir daquilo que são as ações mais frequentemente exigidas ao Guarda-Redes no jogo em termos gerais e as que são determinadas pelo modelo de jogo da equipa definem-se os exercícios para o treino específico que são iguais para todos os Guarda-Redes.

Seguidamente partir para as necessidades individuais de cada Guarda-Redes numa perspetiva de melhoramento para estar mais próximo de jogar naquele modelo de jogo.
Torna-se necessário perceber no futebol sénior o que cada Guarda-Redes pode e “quer” mudar sem que existir perda momentânea e acentuada de rendimento.
Reafirma, que na construção de exercícios a base é o jogo verificando o que acontece com maior frequência à sua própria equipa e a partir daí vai criar os exercícios, segmentando o jogo em momentos específicos de maneira a que os Guarda-Redes se sintam confortáveis taticamente, tecnicamente e ao nível de decisão.
Em relação ao trabalho individual e analítico realiza-se decompondo o gesto técnico em várias fases.

Como é que implementas a tua cultura de treino de GR nos diversos contextos por onde passaste?

Temos de ir com uma ideia bem definida do que pretendemos. Além disso, faço uma observação prévia dos guarda-redes (por vídeo) e depois tenho de confrontar “in loco” esta ideia pré-concebida com o que se passa no campo. E há aspectos essenciais que não conseguimos observar por vídeo, como por exemplo as características mentais. Claro que tudo isto depende, como já referi, do modelo de jogo, da cultura de trabalho, entre outras questões.

Considero importante, em primeiro lugar, a conquista da confiança por parte dos guarda-redes. Que eles me reconheçam competência, e eles percebem rapidamente se a temos ou não pois possuem já muitas vivências que lhes permitem fazer essa avaliação. Procuro que confiem em mim pelo que sou como pessoa/profissional.
E para isto, pergunto regularmente, mas de uma forma informal e subtil, o que estão a sentir, como se sentem etc. Quando os sinto desconfortáveis há muitas formas de lhes darmos o que os faz sentir bem eles por exemplo durante 5 minutos do treino, e os restantes 35 minutos direcionados para a metodologia em que acreditamos.
Temos de sentir estas coisas e algumas vezes quase “negociar”, pois ao contrário do que se possa julgar isto não nos retira autoridade!!!

Depois de perceber isto tudo, já me é possível diagnosticar as suas necessidades individuais e isso permite-me passar para uma individualização do treino, respeitando as questões de nível cultural e futebolístico da cada país, adaptando certas questões aquele tipo de futebol (por exemplo, na Polónia, é um contexto em que os adversários nos tentavam “ferir” por via do cruzamento) e isso teve um peso considerável no tipo de trabalho específico a realizar.
Este “sentir” o Guarda-redes não se faz numa entrevista formal; faz-se depois de um treino, sentados no relvado falando e brincando com eles, percebendo o que estão a sentir, é isto tudo que nos permite chegar ao indivíduo e à cultura onde estamos.

Nesse futuro achas que a evolução no jogo integrado do GR e do seu treino a ser possível a (co)existência de 2 treinadores de GR?

(a resposta a esta questão foi respondida noutro artigo)

Coronavírus: O que tens planeado e que estratégias procuras te utilizar para trabalhar com os teus GR durante o período de isolamento em casa? Algum conselho?

Tem havido uma manutenção física geral que é assegurada pelo preparador físico, com os guarda-redes incluídos, com todos os treinadores a assistir.
Da minha parte, tenho elaborado treinos para a flexibilidade que é algo que nem sempre dedicamos a devida atenção durante a época, coordenação específica com muitos deslocamentos (de diversos tipos), trabalho de pliometria e de força explosiva (isto em articulação com o preparador físico pela intensidade de cada treino dado por ele e para entender se após esse treino podem fazer algo mais). Procuro também que não percam totalmente o contacto com o solo, realizando quedas simples com bola.
Temos igualmente realizado algum trabalho de análise sobre os jogos que já realizamos ; envio ainda cortes de vídeo de outros guarda-redes e situações de jogo para analisarmos em conjunto.

Nada disto substitui o trabalho de campo, e eu basicamente tenho-me preocupado com o evitar de uma regressão acentuada dos níveis em que estavam; mais importante que tudo tenho aproveitado para fortalecer os laços já criados.

Qual é a tua ideia de como queres abordar o treino quando todos voltarem deste período de pausa? O que achas que pode ser mais importante trabalhar?

Muito contacto com bola, em situações defensivas e ofensivas. Muitas situações analíticas/técnicas de contacto com bola e depois voltar ao trabalho habitual de acordo com a metodologia implementada desde o início da época.
Depois, claro, estaremos dependentes de quando voltaremos, em que condições e de quanto tempo demorará até ao primeiro jogo. Tudo isto determinará o meu planeamento. Mas neste momento é isto que tenho na cabeça, com o complemente de necessidades individuais articuladas entre mim e o preparador físico.

Dicas a dar a treinadores e guarda-redes?

Mais que dicas, são opiniões baseadas na minha experiência.

Aos treinadores de GR: sejam criativos (criem os vossos próprios exercícios, não sejam influenciados por “modas”); a melhor forma de o fazer é olhar para o jogo e pensarem “isto está a acontecer, como é que posso transformar isto num grande exercício de treino?”; que acima do nosso sucesso individual, esteja o sucesso e o desenvolvimento do guarda-redes; que desenvolvam a vossa capacidade de adaptação a diferentes contextos, guarda-redes e modelos de jogo pois assim estarão mais preparados.

Aos guarda-redes: que tenham personalidade e que assumam responsabilidades nos momentos certos (no erro; nas funções em campo, pela coragem e audácia nas ações); não permitam que vos apontem o dedo em situações que são coletivas; desenvolvam desde muito cedo uma capacidade de sacrifício e de resistir à frustração pois desta forma estarão mais preparados para o futuro.

Terminado o “dissecar” desta entrevista, informamos que existirão mais mesas redondas/entrevistas n’A Última Barreira com mais profissionais/amadores como treinadores e guarda-redes. Fiquem atentos.

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