(Análise) Situação de cruzamento: “O posicionamento que diz tudo sobre ti e a acção que passa de difícil a natural”, por Alisson Becker

Entre inúmeras coisas, com maior ou menor complexidade mediante o contexto que te rodeia (linha da defesa, linha ofensiva, portador da bola e onde está, qual o pé que usa e quais as hipóteses que tem para executar, minuto de jogo, entre outras), emerge a necessidade de perceber, num dos momentos mais difíceis do guarda-redes ter sucesso, o que fazer e como proceder para garantir que a sua equipa não fica em perigo. E falamos do jogo aéreo em situação de cruzamento.

De forma muito simples ficam assim sintetizadas por zonas de posicionamento do GR mediante a bola neste submomento do jogo (e também incluído o espaço para controlo da profundidade). Podem ver aqui

Neste caso damos um exemplo de Alisson que no início deste ano civil de 2020 teve uma acção que até pode ter passado despercebida mas que merece relevo – quem disse que para uma acção de um guarda-redes ser mais valorizada é preciso possuir, em si, um voo espectacular?

Apresentamos a imagem do que gostávamos de salientar e de seguida passamos para a explicação:

 

Em primeiro lugar, a identificação do momento em questão: situação de cruzamento. E isto pode parecer banal mas é importante para o guarda-redes ir lendo o momento em que está para se adequar, por via do posicionamento e da comunicação, ao mesmo.

Após responder ao “O quê?”, responde ao “Onde?”. E este refere-se a vários quadrantes:

  • Bola: Onde está a bola? Neste caso está fora da área, numa zona onde não há risco maior de remate (mesmo com bola descoberta).
  • Portador da bola: Qual o seu pé? Neste caso, pé do lado contrário ao seu corredor (pé esquerdo no corredor lateral direito), ou seja, a curvatura da bola é “para dentro”.
  • Onde está a cobertura ao portador da bola? Se é bola descoberta/coberta. No caso, está descoberta logo o jogador não está pressionado (por via directa) no momento da sua acção.
  • Onde está a linha defensiva? Está no final da área, aumentando o espaço entre esta última linha e o guarda-redes (como marca, na imagem, a zona perigosa a branco pela probabilidade da bola cair ali). E isto influencia também o guarda-redes na sua definição de posicionamento. No caso, Alisson estava bem coordenado com a linha defensiva e procurar minimizar o perigo daquela zona perigosa assinalada.
  • Onde está o ataque? Ou a fazer o quê? Esta é a mais difícil do guarda-redes interpretar após esta análise dos restantes acontecimentos/momentos. Para tal a orientação de apoios e a constante visualização periférica é essencial para ir percebendo todas as movimentações que estão a acontecer, ou pelo menos garantir aquelas no seu campo de visão. No caso, estão dois jogadores adversários no final da área que podem criar perigo neste momento, sendo que um movimenta-se para o centro/poste perto e o outro para o centro/poste longe. E o posicionamento do GR que é o outro “Onde?”…
  • Onde o guarda-redes deve estar? Esta é uma consequência da maioria das anteriores. Importante ele estar fixo, bem equilibrado para analisar tudo isto que se passa em seu redor. Aqui, Alisson percebe que existe perigo pelo ar mas que também pode existir a hipótese de um passe para o poste perto e entrar rápidamente em situação de 1×1. O posicionamento de Alisson cobre as possibilidades mais previsíveis que acabo de mencionar. Coloca-se numa zona central, relativamente alta – para diminuir a zona de perigo a branco – e para estar confortável para a acção seguinte. Os pontos a branco são referências diferentes de posicionamento perante uma diferente profundidade da bola em questão – mais longe ou perto da área? E isso influencia a profundidade do posicionamento do GR também.

O “Como?” é uma consequência das respostas anteriores e de, claro, toda a automatização de movimentos que o guardião vai acumulando desde a sua formação no gesto técnico. Alisson analisou bem o primeiro terço da trajectória da bola, na força, alcance e direcção, e pelo posicionamento que tinha na pequena área foi uma acção “confortável” por ter as bases bem adquiridas numa fase anterior.

As acções saem mais naturais, quanto melhores forem os seus alicerces tácticos, técnicos, físicos e, claro, mentais. Porque se Alisson não estivesse bem focado dentro de jogo e estivesse a par da sua função neste momento e a confiança para ter este posicionamento e posterior acção técnica… nunca teria sucesso.

Vídeo da análise:

Por Gonçalo Xavier, Fundador e Gestor d’A Última Barreira e Treinador de GR Sporting CP Feminino “B” e U19.

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