Erros? Há muitos. Explicações ou reflexões, porém, são poucas num regresso a uma normalidade anormal

Gonçalo Xavier, Fundador e Gestor d’A Última Barreira e Treinador de Guarda-Redes.

A liga portuguesa voltou, sendo a segunda das “maiores” na Europa a voltar após paragem devido à pandemia do covid-19 e semanas depois da Bundesliga ter voltado. Tínhamos feito uma pequena análise nessa estreia alemã e tínhamos já indiciado uma das reflexões maiores para este período conturbado e instável:

Ou seja, mais do que julgar o guarda-redes – neste momento não há justificação para isso, tais estes corpos que estão menos preparados para a exigência actual que o habitual – é importante salientar e alertar quem possa voltar à competição a mais breve/médio prazo que por mais que se tenham planos individuais/gerais para os guarda-redes de manutenção física, que é importante a relação com bola e o trabalho em campo, concretamente.Ganharam-se coisas neste período de “pausa” mas perderam-se outras que, não é em 4 semanas de trabalho – duas individualmente e duas integradas – que se consegue chegar ao ponto pré-covid-19. Talvez só daqui a um mês (ou menos) estejam aptos para a competição e cumprir na mesma, com rendimento e sem lesões. Existirão excepções, depende muito do trabalho feito colectivo/individual neste período ou das capacidades já existentes dos atletas, mas será algo que irá acontecer a duas/três semanas, podendo-se esperar um “normalizar” das capacidades atléticas após este tempo.

Isto é como se fosse uma pré-época mas com necessidade de resultados em jogos oficiais. Quem treina sabe que na pré-época existe muito acumular de cargas e que o corpo em jogo está, por vezes, fatigado e não responde e o processo, entre o cérebro e a(s) parte(s) do corpo que vão executar, é mais lento. 

  • Artigo de 17 Maio, em A Última Barreira, sobre Schubert no regresso aos jogos oficiais (ver aqui)

Coincidência ou não, passadas essas semanas supra referidas, os guarda-redes na Bundesliga estão a cometer menos erros. Más decisões existirão sempre, mas as que surgem neste momento já são mais padronizadas e não tanto esporádicas. Os índices físicos cresceram, a adaptação a este novo contexto está a acontecer de forma progressiva e com naturalidade tudo tende para uma “aparente” normalidade nas tomadas de decisão e respectiva acção.

Ora, em Portugal, não faltaram erros de guarda-redes neste regresso à competição. Praticamente a cada jogo que assistíamos, víamos alguns erros de guardiões a dar (ou não) em golo e que não eram muito normais de acontecer pré-pandemia na quantidade e no insólito também. Tínhamos dado esse alerta semanas antes deste reinício e que à medida que os jogos aumentam e as ligas recomeçam, temos de recolher os dados e padrões para tirar as melhores conclusões no sentido de sermos preventivos no regresso à competição em vez de sermos reactivos. E daí a importância de olhar para estes jogos de regresso e pensar em todo o processo até aquele momento, a natureza do erro e em que momentos surgem. Temos tudo a ganhar se reflectirmos sobre isto sem grandes julgamentos. Teremos tudo a perder se entrarmos no campo da crítica fácil.

Porque fomos muito interpelados no Twitter, deixámos esta reflexão curta:

“Os outros podem falhar que há mais espaço para recuperar, com mais margem para errar. O trabalho dos GRs é demasiado específico e estar confinado em casa não ajuda nada, principalmente a GRs cada vez de maior complexidade na tarefa e na decisão. Daqui a 3 semanas estão óptimos…” (ver aqui)

  • Pequena reflexão a 4 de Junho no Twitter A Última Barreira

Isto remete-nos para a exigência crescente das tarefas e funções do guarda-redes no futebol e, em consequência, do treino específico (cada vez mais integrado). Se os nossos guarda-redes – e em Portugal procura-se, cada vez mais, isso – querem-se cada vez mais completos, de decisão e com diversas e difíceis decisões/acções, se não estão no topo das suas capacidades, nos diferentes quadrantes, estão mais perto de errar. O treino com bola, em situações o mais reais possíveis – no espaço e na envolvência com os colegas – é essencial e o guarda-redes não chega “ao seu melhor” apenas com duas semanas de treino individual e três seguintes com integrado. É curto para uma preparação que se quer de topo e de máxima exigência. E é daqui que podem surgir as “soluções e prevenções” para o regresso à competição dos nossos jovens ou semi-profissionais que precisam de preparar a nova época. Uma pré-época de 8-9 semanas talvez seja o ideal.

É um facto que o erro é menos tolerável no guarda-redes que nos restantes jogadores porque é o último elemento a ultrapassar até ao golo do adversário. E nestas condições, o guarda-redes está numa posição mais desconfortável que o habitual. E igualmente inglório… exigindo ainda mais espírito de sacrifício e de luta da sua parte.

Imaginem um cérebro de um corpo que fica fechado durante dois meses. Quando antes podia resolver uma equação de 2o grau de forma simples, passado esse tempo sem estímulo irá demorar muito mais. O pensamento que antes era automático dos passos a dar, agora é mais lento, ponderado e difícil de agregar os passos até chegar ao resultado final. Ou o carro que não anda há meses, poderá demorar a arrancar. São pequenas analogias para se fazer o “transfer” para o corpo humano de um profissional em futebol de alta exigência. Sem estímulos “reais” durante este tempo, ele vai cumprir algumas coisas, como o carro que acaba por andar depois de alguns sobressaltos ou o cérebro que resolve a conta mas demora mais tempo… mas eventualmente poderá falhar e, principalmente, não ser consistente ao longo do tempo (no caso, um jogo de futebol).

Uma possível solução por parte do guarda-redes é a estimulação da comunicação verbal/não verbal para prevenir situações de desconforto e melhor guiar a equipa nesse sentido. Se já é, normalmente, uma capacidade essencial, aqui ainda mais se torna para evitar desconforto e muitas situações de perigo contrário com a coordenação da linha defensiva e de alerta perante os movimentos contrários. Apostar na prevenção em vez da reação…

Vivemos tempos complicados em que estamos a mudar hábitos, percepções do que está certo/errado. Estamos em constante adaptação. Até por isso é preciso calma de quem está dentro do processo e em quem está de fora a olhar para estes profissionais que agora voltaram. É preciso compreensão e paciência. E bem se sabe que no futebol alto profissional um erro pode garantir uma perda de milhões… não é fácil gerir isto, também em adição a toda a paixão associada. Mas é preciso alguma moderação e entendimento. Para bem de todos numa situação inédita para todos: para os que vêem e, principalmente, para quem terá de jogar.

Não é uma questão de ilibar os guarda-redes pelos erros. Foram graves e alguns grosseiros. Outros são mais contextuais e que trazem valiosas avaliações. Mas é um texto para alertar em vez de apontar o dedo a quem erra. Até porque, já diz a expressão popular: “quando um dedo aponta… há quatro na direcção oposta”. E temos de ter consciência da nossa própria humanidade que precisa de treino e é falível, principalmente quando passa por situações imprevisíveis e da qual não há soluções previamente testadas. Vamos caminhar a errar… e será isso que lhes fará ter forças a partir das fraquezas e que melhor irão preparar quem esteja prestes a regressar à actividade desportivo. São lições com re-avaliações constantes.

Imagem de destaque meramente ilustrativa.

 

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