O (des)controlo do momento pela adrenalina gerada por uma grande defesa. Disto não se fala?

Por Gonçalo Xavier, Fundador e Gestor d’A Última Barreira

Certamente que já ouviram dizer que um guarda-redes precisa de fazer uma primeira acção na partida de sucesso para o jogo que lhe correr bem. E quando o guarda-redes faz uma grande defesa, não há um ajuste mental que se precisa de equilíbrio e que precisa de lutar  – e bater de frente – com a adrenalina do momento que lhe tolda toda a razão? Também deve existir… mas é um processo de muita complexidade.

Ora, Aitor Fernandez (Levante) na noite de ontem fez duas defesas seguidas e acaba por sofrer um golo. Se a primeira defesa é imaculada, dada a dificuldade do lance, a partir daí existiram muitas opções/decisões que foram tomadas pela emoção do momento. E ele ficou frustrado por sofrer o golo depois dessas defesas mas… será que existia golo sequer se ele evitasse fazer uma dessas defesas (após a primeira)?

O lance é um contra-ataque conduzido por Kubo (Mallorca) e que acabaria por marcar e o guarda-redes transita do controlo do espaço para o controlo da baliza numa zona devidamente equilibrada e apta para responder ao remate (se existisse). Defende com grande qualidade e a bola sobra para outro elemento contrário à frente da baliza e com oposição. O GR levanta-se rápido e procura uma situação de 1×1 ou de grande redução de espaço e ângulo para um remate.

E é a partir daqui que a racionalidade devia entrar. Se neste encurtamento se entende que foi galvanizado pela emoção e que fazia sentido, pela zona do oponente e o perigo de golo, não se percebe o movimento a seguir à base da razão (pois é entendida, maioritariamente, à base da emoção).

A bola não foi chutada – por grande influência do defesa central que cobriu bem a bola e o espaço – e foi transportada para uma zona aberta. A acção do defesa levou a que o avançado “fugisse” para uma zona aberta onde teria mais espaço e podia pensar noutra opção para chegar ao golo pretendido. E o GR que continuava “com o sangue nas veias” foi atrás do portador da bola para uma zona aberta. Ou seja, uma das boas acções do defesa não foi entendida pelo GR, tal como o momento em seu redor.

Bola para zona aberta da área o GR só sai se tiver a certeza absoluta que ganha a bola. Não tenta criar assim uma situação de 1×1 onde a vantagem está toda no portador da bola que tem um GR fora da baliza e um colega ao lado para jogar a bola e rodar o centro de jogo e procurar novos espaços. Mas esta acção do GR, como já mencionado, tem muito mais de emoção que razão num claro desequilíbrio destas duas forças que se afectam e influenciam mutuamente, dito por senso comum. E todo o desconstruir do lance foram apenas ajustes ao caos criado pela adrenalina no lance do GR.

O momento de reflexão está aqui, neste controlo da adrenalina após um grande momento. Muito se fala do controlo emocional após um momento mau… mas e após um momento bom?

Aqui foi um desses casos. Até podia ser golo à mesma e de outra forma. Mas o ponto de reflexão está na acção tomada pela adrenalina do momento e não pela devida análise ao lance. Porque podemos concluir com toda a certeza que se o GR partisse do posicionamento antes o duelo de 1×1 na recarga, que não iria atrás daquela bola jogada para uma zona aberta e reajustava na baliza. E o descontrolo emocional tem muito disto, ajudar/piorar as nossas decisões que em momentos num contexto mais controlado e calmo não seriam tomadas após grandes e atempadas reflexões.

“Ah, mas o erro do GR não esteve aí mas sim no momento que defende para a frente no segundo remate”

Sim, não foi a melhor abordagem. Mas essa defesa foi uma consequência ou a causa do caos? Talvez tenha sido uma consequência da ida aos pés do adversário numa zona aberta e depois ter voltado de seguida para recuperar na baliza sem grande tempo para pensar no remate, apenas reagir ao mesmo.

Outra pergunta pertinente, afecta à influência do treinador de guarda-redes para o controlo do guarda-redes nestes casos?

Uma possibilidade seria a de, em certos exercícios de defesa de baliza com remates interiores/exteriores, ter algum número de repetições para defesas sequenciais e o GR entender quando é suposto encurtar ou recuperar na baliza e esperar. Do género remate na diagonal como o retratado aqui no lance (nas imagens seguintes) e ter mais ou ou outro guarda-redes à espera da recarga – um em zona central e outro mais aberto do lado contrário, em linha com o do meio ou um pouco mais atrás, para o GR ter esse ganho de adrenalina e saber agir de seguida com maior reflexão (em vez de ir, ficar na baliza). Mas aqui sugiram vocês também exercícios – e se é possível –  treinar este equilíbrio “mental”.

Proposta de exercício:

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Mas parte de todas as partes assumir que nem todas as bolas são do guarda-redes e que não se quer super-heróis sem causa, mas com efeito. Sempre com as bases certas. E esta discussão de prevenção em vez da reacção é essencial. A base da evolução está neste espírito de questionamento contínuo e tentar perceber os porquês e como para se tirar conclusões para uma futura reflexão. E por questão, não significa julgamento.  É importante diferenciar ambos. Acríticos é que nunca… 

O vídeo com a análise e o lance corrido:

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