(ANÁLISE) Olhas ou olhaste para o quê? Agirás pelo que sabes, treinas e pelo que viste – ou não – antes

Sentimos o mundo de várias formas naturais e ensinadas desde cedo e que nos vão toldar no momento de pensar/agir. Umas mais que outras e a nossa tomada de decisão, se queremos que seja “fundamentada”, tem de ter muitas delas inerentes. A visão do que se está a passar à volta é uma delas… sob pena de agir “às escuras” e cegamente, com menor probabilidade de sucesso.

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Temos aqui um exemplo perfeito para se perceber a importância dessa visão e como afeta a tomada de decisão e consequente ação.

Neste cruzamento, para o 3o golo do Chelsea contra o Rennes, o guardião tomou um posicionamento central para um momento previsível de cruzamento para se defender de uma bola mais curta ao primeiro poste, meio ou segundo poste.. O posicionamento não mudou praticamente (em largura, ou seja mais ao poste perto quando a bola fosse mais para a profundidade) e manteve-se quase inalterado e até algo desequilibrado corporalmente escrevendo.

Ora, definimos os posicionamentos mediante o quê? A bola, claro, e onde está a nossa defesa e o perigo contrário. É complexo ver isto tudo após um cruzamento, portanto é necessário ler boa parte do que está à sua volta – o mínimo exigível é o meio, e rodem a cabeça uma ou duas vezes para ver isso – antes do cruzamento surgir. E se calhar uns bons 5-10 segundos antes para entender como está a defesa a retirar a profundidade e a abordar o adversário na área (estão marcação HxH ou zonal) e para o GR se posicionar perante esse perigo e… comunicar com a defesa como se ajustar para evitar perigos. E muitos golos são evitados com uma boa comunicação!

É o que se passa na imagem seguinte:

O que vê e o foco que tem (bola) e o que não viu antes, adversário a ameaçar o meio/poste perto e o defesa sem conseguir alcançar – Ver vídeo para se entender melhor.

Neste lance em concreto só existia um homem contrário a ameaçar o ataque ao espaço à frente do GR e estava em inferioridade perante a defesa contrária. Mas o GR com uma visão totalmente orientada para a bola, fica impossível comunicar – sem ser o mítico “levantar a mão” para o lado contrário mesmo que não tenha visto se está lá alguém ou não que o ameace – com a sua defesa para melhor se comportar perante o perigo que estava a surgir.

A azul o que aconteceu e a cinzento as tais possibilidades de cruzamento e de movimentação do avançado que podiam ter acontecido

E como se pode achar que ele não viu nada – ou não interpretou bem os movimentos contrários – antes do cruzamento é que ele deixa-se cair para o lado oposto ao que o avançado se está a movimentar. Claro sinal de reação pura e de falta de leitura do que estava à sua volta antes. Ver imagem em baixo.

Momento do remate em que o GR está no lado contrário ao do avançado que finalizou ao primeiro poste.

Sugestão para ajudar a resolver isto, estar um passo em relação ao seu ponto inicial na imagem para o poste perto e depois atacar em antecipação ou em reação mais perto do adversário para acabar por ser o destinatário final do remate e não as suas redes. E até podia sofrer, mas seria de louvar a decisão e a sua leitura que era aquele espaço o usado para o avançado atacar em remate. Ah, e claro, para isto era preciso ter olhado para o que o avançado estava a fazer e se visse claramente – como no caso – que ele acelerou bem cedo para o poste perto.

Este é um dos muitos exemplos em que agimos pelo que (não) vimos à nossa volta antes e apenas reagimos. E quanto melhor e apurada leitura o guarda-redes tiver do que está à sua volta, bem antes do passe, cruzamento ou remate contrário – e por à sua volta, fala-se no espaço e quem está à sua frente a atrás de si (baliza) – mais perto do sucesso se estará. Dá muito trabalho e só é possível se o guardião tiver um total controlo do seu corpo, no que é capaz e não é, se tiver bem estimulado em treino (nem que seja ao nível puramente físico, para estar confortável em agir) e se colocar a si, ou com ajuda do seu treinador, a ler bem tudo à sua volta bem antes. Mas resulta, é experimentar. Se querem ser mais completos e inteligentes em campo e na função que exercem, pode ser a diferença entre um golo ou um corte do central ou uma defesa do guarda-redes. 

Para além da análise do momento, ainda podia ser complementado com um possível padrão do adversário no momento do cruzamento e com quantos homens atacam a bola na área e para onde vão. Mas aqui se foi apenas a este ponto em concreto, da análise do momento, sem ser da análise prévia do adversário – porque nem sempre existe essa possibilidade fora do contexto profissional.

Em seguida o vídeo completo com todo o lance e as repetições e a nossa análise:

Por Gonçalo Xavier, Fundador e Gestor d’A Última Barreira e Treinador de Guarda-Redes

 

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