Análise: Um guarda-redes muda um jogo, para o bem e mal. Desta vez, Alisson mudou um jogo pela negativa. Mas onde/quando errou?

– Análise por Gonçalo Xavier, Fundador e Gestor d’A Última Barreira e Treinador de GR

Foi tema de conversa de destaque, durante algumas horas após o Liverpool 1-4 Manchester City, que os “citizens” continuavam incríveis e que a equipa de Anfield Road se encontrava nas ruas da amargura onde nada saía bem. Duas equipas de enormíssima qualidade e em pólos opostos a nível anímico. E um jogo que, a muito custo e apenas de penalti, o Liverpool conseguiu empatar… mas que a partir do momento que Alisson falhou um passe que deu numa transição e que acabou em golo… o jogo morreu.

E é sobre isso que é preciso debruçar, pois os erros ou sucessos normalmente têm origem alguns segundos antes e não apenas no momento da ação. É esta a premissa para analisar os dois golos que “partiram” dos pés de Alisson com passes falhados.

Sobre já o segundo sofrido pelo Liverpool, mas o primeiro desta sequência, debruçar sobre a seguinte imagem:

Edição via INSTAT

Depois de uma longa posse de bola, entre os 5 da defesa (GR+4 defesas) onde não existiu progressão, foi Alisson a tentar quebrar a pressão contrária ao tentar progredir com bola, tentando fixar o homem na pressão e depois libertar para o espaço nas costas dessa pressão, assinalado a vermelho que o aconteceu e a amarelo/laranja as alternativas e o porquê das mesmas.

Fazendo uma legenda da imagem em cima:

(a) a vermelho, o que aconteceu com Alisson a tentar fixar o adversário onde acabou por se atrapalhar e passou aos tropeções para o seu defesa central direito que depois chutou a bola de primeira devido à pressão do adversário. Isto foi o que aconteceu.

(b), (c), (d), são alternativas para uma saída limpa da equipa e a azul são as zonas que os adversários estavam a defender. Respetivamente, (b) era de facto, o homem mais livre sem pressão perto da linha defensiva, depois na 2a hipótese (c), com o 6 “escondido” era este dar-se a mostrar ao GR para sair depois a jogar de frente para o jogo e com o médio perto a abrir e até, se calhar, existir pelo 6 um passe para o avançado centro. Por fim, outra alternativa era o médio interior mais perto mostrar-se e depois, numa linha à frente, jogar no 6 que progredia com menos oposição pois o médio contrário iria ser atraído por este médio a receber.

E atenção… NÃO foi aqui que foi o golo. Foi depois, na transição seguinte. Vejam o vídeo completo e já se continua:

 

 

Voltamos à premissa inicial: “os erros ou sucessos normalmente têm origem alguns segundos antes e não apenas no momento da ação”.

Este atrapalhar todo de Alisson originou um turbilhão de confusões a seguir, desde o Fabinho (defesa centro direito) a bater apertado para a frente e felizmente a equipa recuperou a bola e deu novamente confiança ao guardião para sair a jogar depois da tentativa do City sair furada. Era momento de acalmar e analisar de novo. E eis que volta a bater, sem se preparar devidamente – fechando muito o corpo – para o adversário e nessa transição sim foi o descalabro que terminou em golo.

A primeira tentativa de passar a pressão contrária, saindo furada e com culpas para o GR ainda estava muito fresca na cabeça do mesmo. E perante tanta pressão (mérito do City) e apatia da equipa do Liverpool, foram os condimentos para o passe na segunda tentativa sair curto… apesar da decisão de bater para aquele espaço ser a correta, ora vejam:

Edição via INSTAT

Onde estava o homem livre? Pois, ali mesmo. E ele analisou bem, mesmo que de forma apressada e algo desequilibrada no momento do passe. Tecnicamente correu mal. Se na 1a vez, foi ousado em tentar fixar o avançado, e que fazia sentido dentro de várias hipóteses para sair da pressão contrária (mas ninguém se mexeu da sua equipa para se mostrar), falhou tecnicamente no passe que saiu trapalhão e mais curto do que o suposto, fazendo o defesa mexer-se e retirar a bola com pressão, na 2a vez foi também técnico o erro. Ou seja, as tomadas de decisão eram exigentes e eram bem medidas para passar a equipa contrária. Mas o erro foi técnico (passe mais ou menos curto), na sua execução. Não foi no pensamento o problema. Aqui… e no seguinte?

E no golo segundos depois, o terceiro sofrido? Como foi?

Nem dois minutos depois, estando ainda na sua cabeça o golo sofrido com sua influência direta, a equipa voltou a dar-lhe confiança.

Lembram-se que antes fora dito que os erros foram técnicos e não táticos (decisão, de fazer X coisa)? Pois bem… aqui foram ambos, com maior foco negativo para a decisão de colocar a bola para onde não teriam vantagem. E basta uma imagem para perceber o porquê:

Primeiro vejam o vídeo e depois esta imagem. A pressão estava toda do lado de onde vinha a bola e reparem agora no corpo de Alisson. Corpo “fechado” para o lado da bola, sem ver os corredores opostos para uma possível variação de jogo onde pudesse ter mais colegas jogáveis e menos adversários para importunar e assim ter progressão no campo com bola controlada. E tentou, quando exerceram a pressão e sabendo que já tinha errado antes neste momento do jogo (passe), novamente jogar de primeira para o sítio que estava mais povoado pelo adversário e menos pela sua equipa. E o resto, é descalabro e, claro, deu em golo.

Podíamos falar nas decisões finais – fazer ou não sentido encarar 1×1 no 2o golo e neste lance a forma como fixou e onde fixou – mas isto é pouco falado e é de extrema importância: os segundos antes do momento final. E esses impactam as nossas decisões e ações e as do adversário também. E este terceiro golo teve origem nos segundos antes quando sofreu aquele segundo golo, não duvidem.

Mas para analisar isto é preciso ter os recursos. As repetições, normalmente, não vão tão atrás e perdemos muito conteúdo da análise. É pena. Que se pense sobre isto. Vejam dos vossos guarda-redes, ou dos outros, quando sofrem um golo e recuem até 1 minuto (ou mais antes) e se ele teve alguma intervenção ou até posicionamento que não era adequado. Pode estar aí o início do dominó que, depois de estar em pé e equilibrado, basta um toque para fazer cair as peças seguintes.

Por fim, citando O Jogo, as palavras de Klopp no fim da partida:

“Aqueles dois golos mataram o jogo, obviamente. Toda a gente sabe isso. Falei com ele [Alisson]. Estava, obviamente, desapontado e a dizer ‘hoje não foi o meu dia’. Eu disse-lhe que esse é o problema dos erros: tu não decides quando vais cometê-los”, contou o treinador dos “reds”, prosseguindo:

“A única coisa que podes fazer é aprender com eles e é isso mesmo que ele vai fazer. Isto não vai voltar a acontecer, tenho a certeza”, acrescentou Klopp, que, numa primeira análise, admitiu que o problema de Alisson no jogo poderiam ter sido… “pés frios”.”

E disto não duvidamos. Nestes erros aprende-se muito. E a confiança que Alisson mereceu nestes anos ter da equipa, técnicos e adeptos, justifica-se. Foi só um pequeno revés.

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