Como vem e onde vai a bola? Esperar, equilibrado, para ver e decidir e não antecipar. O princípio no meio do insucesso e sucesso

Analisar com base em fins, de sucesso ou insucesso é errado. E é preciso ser bastante frio nesse momento pois há toda uma emoção que nos pode toldar o argumento. Tal como o filho que, para os seus pais ou avós nunca falha e é sempre desculpado. Por vezes é preciso distanciar-nos para ver as coisas de uma nova e diferente perspetiva que muda tudo.

Não há resultado algum que possa fazer descurar toda uma análise cuidada a tudo o que se passa antes e durante essa ação. Essa ação, boa ou má, tem todo um pensamento, uma decisão – ou mais -, movimento que merece ver com cuidado. Do jogador em si, da sua relação com os outros, da bola, entre outros. É tudo muito complexo e merece o devido olhar. Mas há pequenos padrões que merecem, num alto nível, trazer como referência para as bases do “amador” para reflexão e melhoria com o pensamento e discussão. Não é um apontar de dedos em busca de culpados mas sim um exemplo visto por todos, onde a maioria tem uma opinião, e tirar de lá algo… sendo que o maior dano já está feito: Portugal está eliminado do Euro 2020.

E o lance que vamos refletir é do golo sofrido por Rui Patrício contra a Bélgica que mostramos de seguida… E fica já uma das notas essenciais: Um golo incrível, com um remate feito altamente imprevisível tal o efeito colocado no mesmo:

Confessamos que quando vimos o lance pela primeira vez, até porque o protagonista na baliza (Rui Patrício) era o mesmo, nos lembrámos do golo sofrido no Mundial 2018 a remate de Cavani e que fizemos artigo em www.ultimabarreira.com (aqui). Mas o lance não tem assim tanto que ver com o mesmo.

O não ajuste com o movimento da bola de fora para dentro e com bola descoberta (ver as duas imagens de seguida, momento da receção do jogador e do remate do mesmo):

A bola anda para o meio 2-3 metros e Rui manteve exatamente a mesma posição na baliza e no corpo. Sendo que isto pode invalidar outro ponto que podia ser essencial aqui na decisão do guardião para o seu posicionamento: não está na bissetriz. Como ele pouco ou nada ajustou, não se pode dizer que está fora da mesma porque tem o Ruben Dias a tapar o lado oposto da baliza e ele assim defender o “livre” (do meio para o poste perto) – ligação e ajuste mediante coberturas com os defesas. Mas o Ruben não estava assim tanto a tapar o poste longe e o Rui devia ter ajustado mais ao centro. 

Até quando me devo “manter” e depois tomar uma decisão e agir? (Leitura da trajetória da bola)

Para isto vamos recorrer à literatura e este é um dos pontos fundamentais para este remate ter entrado – leitura de trajetória e em que momento se faz, como se faz e como se age depois.

No livro “1001 decisões do guarda-redes de futebol” fala deste tema muito bem, aplicado mais ao momento do cruzamento mas que se facilmente se aplica a mesma lógica em remate exterior: “o GR deve avaliar o 1/3 de trajetória da bola, de modo a perceber onde irá cair (deverá permanecer parado durante este tempo pois qualquer deslocamento desnecessário poderá ter implicações diretas no sucesso da sua ação)”.

Nota relevante: NÃO É A MESMA COISA ENCARAR UM CRUZAMENTO VS REMATE. Contudo, para se entender a argumentação, serve de base para este lance na questão de não deixar o corpo ir para um lado quando a bola sai do pé do batedor. 

Ora o que aconteceu? Mal a bola partiu, Rui colocou o peso para o lado contrário onde a bola caía e desde muito cedo que se encontrava desequilibrado para entender o movimento e alcance da bola e assim agir em conformidade para defender. E isto aconteceu, nesse mesmo momento com sucesso num lance igualmente de tiro exterior que deu provavelmente na melhor defesa da competição. Curioso, certo? Vejam no seguinte vídeo como ele coloca o pé para o pé oposto. Com uma diferença, talvez essencial para que uma desse em defesa e outro em golo: no de França, ele não se desequilibrou para fazer a defesa a seguir, mesmo que no limite, já contra Bélgica, levou o tronco para o lado oposto e para a frente e isso fê-lo desequilibrar-se para a defesa. Vejam por imagens.

França:

Bélgica:

Em ambos os movimentos foi pós salto preparatório, em jeito de ativação ativa para o remate. Só que num levou o tronco consigo nesse movimento, noutro – apesar de perder alcance na baliza – colocou o peso no pé oposto mas conseguiu mesmo assim manter o tronco equilibrado para marcar o apoio do lado da bola e depois fazer a estirada.

E como diz no livro em cima citado… mesmo perante remates e bola tão rápidas – esperar mais um pouco sem movimentar o corpo sob pena de já não se ir a tempo para recuperar e evitar o golo sofrido.

E isto também está bem explicado aqui:

E mais que não seja, ao ver um guarda-redes com esta envergadura a sofrer um golo neste ponto final da baliza a meia altura e com o GR muito baixo (corpo) é de se perguntar o que se passou antes para gerar tal desequilíbrio (ver imagem abaixo). E os motivos acima referidos e demonstrados são suficientes para tal.